Um declínio global na contagem total de espermatozóides, especialmente entre os homens nos países ocidentais, continua a provocar previsões apocalípticas. O alerta mais impressionante veio de um estudo em 2017 que encontrou uma queda mundial de 50-60% ao longo de quase quatro décadas entre os homens.(1) Os autores previram que as implicações iam muito além da fertilidade, com cenários de redução da expectativa de vida e doenças crônicas.
No ano passado, um grupo da Universidade de Harvard questionou essas descobertas dramáticas, dizendo que “a diminuição da contagem de espermatozóides não prevê o declínio da fertilidade”. Porém, vários estudos ao longo dos anos vem repetindo a mensagem de que os homens estão produzindo menos espermatozoides e de pior qualidade.
De produtos químicos em embalagens a calças apertadas, essas tendências em espiral tem sido atribuídas a vários fatores. A alta ingestão de açúcar como parte de estilos de vida modernos não saudáveis é agora outra na lista de risco, com vários estudos ligando bebidas açucaradas à função testicular. O último estudo sobre bebidas adoçadas com açúcar – e o maior até o momento – conclui que uma alta ingestão diária de 220 ml em média dessas bebidas pode afetar negativamente a contagem e a concentração de espermatozóides, além de outros parâmetros.(3)
Seu objetivo, disseram os autores do estudo, era melhorar o conhecimento em uma área onde as tentativas anteriores de clareza falharam, em parte por causa dos diferentes conteúdos e composição das bebidas à venda. Eles analisaram dados de 2.935 homens com idade média de 19 anos que (entre 2008 e 2017) foram submetidos a um exame médico obrigatório de aptidão para o serviço militar na Dinamarca.
Um questionário foi usado para verificar a frequência de consumo de bebidas adoçadas com açúcar, bebidas adoçadas artificialmente, sucos de frutas e bebidas energéticas entre os jovens. Bebidas com sabor de frutas adoçadas com açúcar e refrigerantes de cola estavam entre os refrescos consumidos junto com a bebida energética Red Bull®. A função testicular foi avaliada por meio de análise convencional da qualidade do sêmen, volume testicular com ultrassonografia e concentrações dos hormônios reprodutivos (SHBG, inibina-B sérica e inibina-B/FSH).
Os participantes foram questionados sobre quanta água (incluindo mineral e refrigerante) eles bebiam, e os autores também estimaram o efeito da substituição de água por qualquer bebida no estudo. A frequência de ingestão foi medida na semana anterior (refrigerantes, bebidas energéticas) e nos últimos três meses (água, suco de frutas, bebidas com sabor de frutas).
Os resultados mostraram que o Índice de massa corporal (IMC) médio foi de 22, e a proporção de não consumo de bebidas entre os participantes foi de 12% para bebidas adoçadas com açúcar, 64% bebidas adoçadas artificialmente, 14% suco de frutas e 70% energéticos. Aqueles que beberam o maior volume de bebidas adoçadas com açúcar (média diária de 220 ml) tiveram uma menor concentração média de espermatozoides do que os não consumidores. O padrão foi semelhante com as razões séricas de inibina-B/FSH.
Além disso, os homens que aumentaram sua ingestão de bebidas adoçadas com açúcar em uma porção de 220 ml por dia em vez de água potável tiveram uma concentração média de espermatozoides de 3,4 milhões/ml e menor concentração de inibina-B. Consumir uma porção extra de bebidas adoçadas artificialmente (porção média diária de 180 ml) no lugar de água foi associado a menor motilidade total de espermatozoides e maiores concentrações de estradiol e LH.
Tendências semelhantes foram observadas entre os homens que beberam as maiores quantidades de bebidas adoçadas artificialmente: a motilidade total dos espermatozoides, a motilidade progressiva e a concentração sérica de SHBG foram, em média, menores do que as encontradas em não consumidores. No entanto, aqueles que consumiram mais bebidas energéticas (porção média diária de 80 ml) apresentaram maiores porcentagens de espermatozóides morfologicamente normais e concentrações de E2 e LH do que os encontrados com consumidores de bebidas não energéticas.
Nenhuma associação foi encontrada entre suco de frutas e ingestão de água com qualquer um dos parâmetros de função testicular examinados.
Os autores ajustaram para mais de uma dúzia de fatores de confusão, como IMC, níveis de atividade física, ingestão total de energia e padrões alimentares. Mas eles reconhecem que não podem medir estilo de vida e comportamento, ou outros fatores associados à função testicular em homens jovens.
A relação entre a ingestão de bebidas adoçadas artificialmente /bebida energética com a motilidade espermática foi ‘inesperada’, disseram os autores, e estabelecer sua relevância clínica ‘um desafio’, acrescentando que seus achados específicos sobre uma associação positiva com espermatozóides morfologicamente normais ‘devem ser tratados com cautela’ .
Então, essa pesquisa adiciona peso ao apocalipse da fertilidade masculina? Parece que não. Embora os parâmetros do sêmen continuem sendo os pilares para o diagnóstico clínico, os autores dizem que a capacidade deste estudo de prever a chance de gravidez é limitada. Assim, eles acrescentam cautelosamente que qualquer associação entre bebidas açucaradas e baixa qualidade do sêmen “não implica necessariamente em diminuição da fertilidade”.
O que eles aconselham os homens a fazer é substituir os bebidas adoçadas com açúcar por água para proteger a função testicular. Uma solução simples, mas prática, para aliviar uma potencial crise de fertilidade.
1. . Levine H, Jorgensen N, Martino-Andrade A, et al. Temporal trends in sperm count: a systematic review and meta-regression analysis. Human Reprod Update 2017; 23; 646–659; doi:10.1093/humupd/dmx022
2. Boulicault M, Perret M, Galka J, et al. The future of sperm: a biovariability framework for understanding global sperm count trends. Human Fert 2021; https://doi.org/10.1080/14647273.2021.1917778
3. Nassan F, Priskorn L, Salas-Huetos A, et al. Association between intake of soft drinks and testicular function in young men. Human Reprod 2021; doi:10.1093/humrep/deab179
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